O nosso lugar na fila



Hoje, enquanto esperava para comprar meu bilhete de metrô, atrasadíssima para um compromisso, vi uma pequena senhora de pele enrugada e cabelos brancos andando devagar de um lado para o outro. Os olhos pequeninos sondavam sutilmente as três ou quatro pessoas que estavam à minha frente: homens e mulheres, muito bem dispostos e saudáveis, e com dúzias de anos a menos do que ela. Seus pés miúdos arrastavam-se devagarinho como se nada quisessem mas, na verdade, queriam sim e eu sabia bem. Ainda atrasada, verifiquei o celular e sob o calor sufocante da cidade, esperei que aquelas pessoas tão novas, cujos os pés ainda não conheciam o peso da idade, praticassem ali, a sua cota de altruísmo do dia. Em vão. Ao invés disso, deparei-me com um mar inteiro de egocentrismo, quando duas delas, plenamente cientes da notável senhorinha, se dirigiram ao guichê tranquilamente, uma após a outra, respeitando a ordem de chegada e a fluidez natural da fila. A senhorinha ficou ali, ao meu lado, esperando uma oportunidade, sem saber o que fazer com as mãos. Não precisou dizer uma única palavra para que eu, ainda atrasada, a acolhesse com um sorriso e lhe oferecesse, com carinho, o meu lugar na fila.

Não era grande coisa, eu sabia, porque ainda haveria gente na frente. Profundamente comovida, ela apontou para um senhor de meia idade, em uma posição nada vantajosa, explicando que era ele quem compraria os bilhetes. Virei-me, e sem me preocupar com a cara feia de quem esperava a sua vez, envolvida demais naquela situação e encharcada de amor, disse ao senhor que ele poderia ficar com o meu lugar. E o casal, com dúzias de anos a mais do que eu, saiu de sua pequenez na direção do guichê. Ele comprou os bilhetes e ela agradeceu pelo meu pequeno ato de bondade, misturando-se, logo depois, ao oceano de gente, no vai e vem das catracas.

E você aí, debaixo do ventilador, nesse calor absurdo da cidade, pode até me perguntar: o que o ocorrido tem a ver comigo? Então, eu, debaixo do ventilador, responderei a você: absolutamente tudo. Porque um homem que não cede seu lugar na fila, também não consegue pensar no próximo. E a vontade de chegar primeiro em casa, e a ganância pra ter mais dinheiro do que o outro, de repente, se tornam coisas completamente iguais, em dimensões e pesos, nas escalas da generosidade e da compaixão.

O que quero dizer é que o mundo não precisa de caras como Martin Shkreli ou as duas pessoas que estavam na minha frente, mas de gente que saiba abrir mão, de vez em quando, das suas necessidades individuais para o bem estar do outro. De gente que respeite o assento preferencial. De pessoas que saibam acolher, com carinho, as diferenças e as multiplicidades de cada indivíduo. De gente que não planeje enriquecer às custas da fraqueza e da pequenez de quem está ao seu lado.

O mundo precisa de pessoas que saibam respeitar pessoas. E esse respeito começa de dentro pra fora, nas entranhas daquilo que somos. Precisa de gente que pratique a bondade de uma forma tão natural quanto lavar o rosto pela manhã ou passar manteiga no pão. Precisa de pessoas que protejam pessoas.

A vida é pesada demais pra carregarmos sozinhos e é por isso que precisamos uns dos outros. Precisamos de mais gentilezas diárias, amizade gratuita, compaixão pelo próximo, cooperatividade e ajuda. Precisamos de gente que ajude a gente. De pessoas que se ponham no lugar do outro. De gente que pense no bem estar do próximo. De gente que saiba ceder o seu lugar na fila.

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